
A Embrapa lançou uma cartilha didática focada em estratégias de prevenção e tecnologias substitutivas aos antimicrobianos. Chamada de “Resistência aos antibióticos: desafios na luta contra as bactérias resistentes”, o documento foi lançado em um momento de forte pressão internacional, no qual a União Europeia — cliente tradicional da nossa carne há 40 anos — ameaça impor barreiras rigorosas à proteína animal brasileira devido ao uso desses medicamentos no rebanho.
A popularização de alternativas biológicas e o manejo sanitário correto tornaram-se cruciais para evitar um embargo de alto impacto econômico na pecuária nacional.
Em entrevista ao Giro do Boi, o pesquisador Flábio Araujo, coordenador da rede de saúde animal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), deu mais detalhes sobre a iniciativa.
Confira:
O perigo das falhas de manejo: subdosagem e uso preventivo no cocho
A cartilha da Embrapa foi estruturada com linguagem simples e leitura rápida exatamente para combater os erros operacionais mais recorrentes na farmácia das fazendas, que funcionam como aceleradores de superlinhagens bacterianas.
Aplicar uma dose menor do que o peso vivo do animal exige, errar a frequência dos dias de tratamento ou interromper as aplicações assim que o boi apresenta uma leve melhora são práticas fatais. A subdosagem elimina apenas as bactérias fracas, permitindo que as bactérias com mutações de DNA sobrevivam, multipliquem-se livremente sem concorrência e contaminem o piquete.
O uso generalizado de antibióticos de forma “preventiva” em todo o lote na entrada do confinamento (período de muita poeira e estresse térmico) é um erro crônico. Ribeiro foi taxativo ao reforçar que antibiótico não é vacina. Esse manejo em massa elimina a microbiota benéfica do rúmen e seleciona cepas super-resistentes de Pasteurella e Salmonella. A medicação deve ter caráter estritamente curativo e sob prescrição técnica.
Tecnologias substitutivas: o fim dos promotores de crescimento químicos
Atendendo às diretrizes normativas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o mercado caminha para a proibição definitiva de antibióticos importantes da medicina humana na composição de promotores de crescimento na ração. Para apoiar o produtor, a Embrapa lidera o desenvolvimento de ferramentas de substituição de ponta:
- Probióticos e prebióticos: uso de bactérias benéficas vivas (probióticos) que colonizam o trato intestinal do bovino, bloqueando a fixação de agentes patogênicos, associadas a carboidratos complexos (prebióticos) que servem de alimento para essas bactérias crescerem no rúmen.
- Vacinação estratégica: a imunização preventiva contra o complexo de doenças respiratórias e diarreias é a ferramenta mais barata para zerar a dependência de tratamentos injetáveis tardios no cocho.
- Bacteriófagos (a fronteira biológica): utilização de vírus altamente específicos que atacam e destroem exclusivamente as bactérias nocivas, sem afetar o restante do organismo do animal e sem deixar qualquer tipo de resíduo na carne.
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A geopolítica do agro e o conceito de saúde única
O endurecimento das regras de importação por parte da União Europeia está diretamente ligado ao conceito global de Saúde Única, que prova que a saúde humana, a saúde animal e a preservação ambiental estão totalmente interligadas.
O pesquisador desfez o mito de que o boi fica resistente ao medicamento: na verdade, são as bactérias presentes no organismo animal que sofrem mutações. Os microrganismos que ganham resistência no curral pelo manejo errado de antibióticos podem ser transmitidos aos seres humanos através da cadeia alimentar ou do ambiente, inutilizando os antibióticos de uso humano dentro dos hospitais.
Mapeamento nacional do “resistoma” brasileiro
Para blindar as exportações e orientar políticas públicas de compliance sanitário, o INCT e a Embrapa coordenam um levantamento inédito do “resistoma” (o conjunto de genes de resistência a antibióticos) nos sistemas de produção de corte do Brasil.
A pesquisa aplicará questionários de campo aos pecuaristas e capatazes para medir o nível de conhecimento sobre a separação de medicamentos na prateleira da fazenda. O projeto conecta-se diretamente ao programa de Boas Práticas Agropecuárias (BPA), recentemente reconhecido como recomendação oficial do Ministério da Agricultura para todo o território nacional.
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