SEMANA ESPECIAL SOBRE CONFINAMENTO

'Eles vieram para mudar o jogo': especialista detalha o papel dos ionóforos na engorda bovina

Zootecnista Adriano Ferreira explica como os ionóforos revolucionam a eficiência digestiva no confinamento, transformando gases poluentes em arrobas

Foto: Reprodução/Giro do Boi.
Foto: Reprodução/Giro do Boi.

O Giro do Boi desta segunda-feira (15) deu o pontapé inicial a uma semana especial totalmente dedicada à maior ferramenta de engorda vertical do país: o confinamento. Com a chegada da entressafra e o início da grande temporada de cocho, a terminação intensiva caminha a passos largos no Brasil, devendo atingir a marca histórica de 10 milhões de cabeças engordadas por ano.

Em entrevista, o zootecnista Adriano Vinícius de Paiva Ferreira, mestre em nutrição de ruminantes e consultor técnico da Elanco Brasil, detalhou o impacto revolucionário dos ionóforos (particularmente a monensina e a narasina) na pecuária de corte.

Segundo ele, esses aditivos alimentares de uso exclusivo veterinário alteram a eficiência digestiva do gado, atuando como um escudo definitivo contra a acidose, potencializando o ganho de peso e transformando a sustentabilidade no cocho.

Confira:

O mecanismo de ação: como os ionóforos mudam o jogo no rúmen

Respondendo a dúvidas de internautas sobre a engenharia biológica que ocorre dentro do aparelho digestivo do gado, o mestre em nutrição explicou a atuação dessas moléculas:

  • Uso estritamente veterinário: um ponto fundamental destacado pelo zootecnista é que os ionóforos são moléculas de uso exclusivo animal. Elas não pertencem a classes compartilhadas com a medicina humana, eliminando qualquer risco de resistência bacteriana cruzada para a saúde humana.
  • Seleção de bactérias eficientes: no rúmen, essas substâncias alteram a permeabilidade celular e provocam uma troca de íons dentro dos microrganismos. Elas selecionam e multiplicam as bactérias Gram-negativas, que são extremamente eficientes na produção de energia (ácido propiônico), fazendo o gado ganhar mais peso ou produzir mais leite.
  • Escudo contra a acidose: ao mesmo tempo, os ionóforos controlam e reduzem as populações de bactérias Gram-positivas, que são as grandes vilãs produtoras de lactato (ácido lático). Esse controle rígido estabiliza o pH ruminal, prevenindo distúrbios metabólicos graves como a acidose e o timpanismo, garantindo o bem-estar e o padrão de consumo do lote.

Monensina vs. Narasina: qual a diferença prática no cocho?

Embora pertençam à mesma classe de aditivos, as duas principais moléculas do mercado possuem comportamentos distintos, permitindo ao nutricionista desenhar estratégias personalizadas de acordo com o foco do projeto:

  • Monensina sódica (modulação de consumo): atua regulando o apetite do gado. Ela faz com que o animal fracione o bocado ao longo do dia, aumentando a taxa de visitas ao cocho em porções menores. Isso garante um fluxo constante de nutrientes chegando ao rúmen, evitando picos de fermentação. É a molécula da máxima eficiência alimentar (produzir mais quilos de carcaça com menos sacas de ração).
  • Narasina (abertura de consumo): diferente da monensina, a narasina atua sem deprimir ou regular o consumo. Ela é altamente indicada para “abrir o apetite” da boiada em dietas muito densas ou na fase crítica de adaptação (primeiros 21 dias), fazendo com que os animais atinjam o consumo de matéria seca programado com rapidez e segurança, acelerando o Ganho Médio Diário (GMD) inicial. Também apresenta excelente resposta na Recria Intensiva a Pasto (RIP) e na Terminação Intensiva a Pasto (TIP).

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Validação científica: o protocolo inovador do ensaio APTA/Elanco

Ferreira apresentou os resultados de ensaios de campo de longo prazo realizados em parceria com os pesquisadores da APTA. Utilizando uma dieta típica brasileira (silagem de milho, milho moído, polpa cítrica e farelo de soja) em machos Nelore inteiros por 117 dias de trato, a pesquisa trouxe um veredito zootécnico valioso sobre a rotação de moléculas:

O grande destaque produtivo foi o lote que utilizou Monensina nos primeiros 50 dias e foi rotacionado para a Narasina na fase final de acabamento. Esse “combo” estratégico potencializou a eficiência biológica no arranque e abriu o consumo de energia no fechamento do lote, entregando o maior ganho de peso acumulado e o melhor rendimento de carcaça no gancho do frigorífico. A Elanco comercializa essas tecnologias sob as marcas comerciais Rumensin (monensina) e Maxipro (narasina).

O bônus verde: redução do metano entérico

O consultor destacou também o expressivo impacto ambiental positivo ocasionado pelo uso dos ionóforos. Ao otimizar a rota de fermentação no rúmen, as moléculas bloqueiam a perda de hidrogênio, reduzindo severamente a emissão de metano entérico (gás de efeito estufa gerado na digestão). O hidrogênio que seria expelido pelo boi na atmosfera é redirecionado pelo próprio organismo animal para formar energia líquida. Esse processo elimina um dreno energético pesado e converte o gás poluente em arrobas de carne magra de forma sustentável.

O veto político da União Europeia e o risco da Virginiamicina

O debate trouxe à tona o cenário regulatório internacional e as recentes ameaças do bloco europeu de restringir a carne brasileira vinda de animais tratados com Monensina a partir de setembro:

  • Barreira comercial: o consultor foi enfático ao classificar a movimentação da União Europeia como puramente burocrática e protecionista, sem qualquer sustentação técnica ou científica. A monensina é o aditivo mais seguro e documentado do planeta, com mais de 6 mil trabalhos científicos publicados, e a Elanco já acionou mecanismos técnicos globais para assegurar a manutenção da molécula.
  • O Alerta sobre a Virginiamicina: Adriano alertou que a atenção do mercado deve se voltar para a Virginiamicina. Por ser um antimicrobiano de classe compartilhada com a saúde humana, o risco de restrição internacional definitiva é iminente. Contudo, os ionóforos surgem como substitutos robustos e comprovados para manter a saúde ruminal da boiada intacta e com total segurança.

O ‘boom’ do confinamento e o crescimento no Centro-Oeste

A pecuária de corte brasileira vive um momento de consolidação do trato intensivo. De acordo com dados do IMEA, o estado de Mato Grosso projeta um crescimento de 55% nas intenções de confinamento para esta temporada, impulsionado pela alta oferta de coprodutos da indústria do etanol de milho (como o DDG e o WDG). O zootecnista apontou também um forte crescimento no Sul e Sudeste do conceito de Beef on Dairy (cruzamento de sêmen de corte em vacas de leite), com os machos sendo terminados de forma intensiva.

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