
O Giro do Boi desta segunda-feira (15) deu início a uma semana especial dedicada ao confinamento, uma prática de engorda vertical que caminha a passos largos no Brasil, devendo atingir a marca histórica de 10 milhões de cabeças terminadas por ano.
Em entrevista, o zootecnista e consultor técnico da Elanco Brasil, Adriano Vinícius de Paiva Ferreira, mestre em nutrição de ruminantes, trouxe dados de mercado e resultados de ensaios científicos rigorosos conduzidos em parceria com a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA).
Ele detalhou o poder do uso estratégico e combinado de duas moléculas consagradas na pecuária moderna: a monensina sódica e a narasina. Adriano demonstrou como a inclusão de aditivos ionóforos na ração da TIP (Terminação Intensiva a Pasto) e do confinamento tradicional otimiza a digestão do gado, gerando um Retorno Sobre o Investimento (ROI) superior a 800% (8 para 1), pagando o investimento com sobra ao agregar ganho de peso diário e maior rendimento de carcaça no gancho.
Confira:
A conta do bolso: ROI histórico de 8 para 1 na engorda
O ponto alto da entrevista foi a validação financeira do impacto dos aditivos no fluxo de caixa da fazenda, comprovando que a tecnologia é uma das ferramentas mais rentáveis da pecuária intensiva.
O consultor da Elanco foi categórico ao apresentar os números da narasina: “O mercado prega que uma tecnologia, para se consolidar no campo, precisa ter um ROI mínimo de 3 para 1. Na conta que fechamos recentemente para a narasina, o resultado é um espetáculo: o ROI é de 8 para 1. Para cada R$ 1,00 investido no aditivo, voltam R$ 8,00 líquidos para o caixa do produtor”, o que representa um retorno superior a 800%.
Esse retorno financeiro avassalador é impulsionado por um ganho adicional de, no mínimo, 100 gramas de peso vivo por dia por animal em relação a uma dieta comum sem aditivos.
No fechamento do frigorífico, onde o peso vivo se transforma na moeda forte do rendimento de carcaça, o ganho é ainda maior. Se a narasina sozinha entrega 100g a mais por dia, o protocolo associado — utilizando narasina na adaptação e monensina no acabamento — joga o desempenho para 1,7 kg ou 1,8 kg diários. Essa eficiência combinada eleva o rendimento de carcaça e faz o ROI ultrapassar facilmente a casa de 10 para 1 (1.000% de retorno).
O mecanismo de ação: por que associar as duas moléculas?
Os ionóforos atuam diretamente no rúmen do animal, selecionando as bactérias Gram-negativas (mais eficientes na produção de energia em forma de ácido propiônico) e reduzindo as Gram-positivas (responsáveis pela produção de ácido lático, o grande vilão da acidose). Adriano explicou que, por serem de uso estritamente veterinário, essas moléculas não causam resistência cruzada na medicina humana e funcionam em perfeita sinergia quando distribuídas em fases:
- Narasina (foco em consumo e arranque): é um aditivo modulador que atua sem deprimir o apetite do gado. Pelo contrário, ela “abre o apetite” da boiada e estimula a ingestão de matéria seca logo no início do trato. É imbatível na fase crítica de adaptação (primeiros 21 a 50 dias) e na TIP.
- Monensina sódica (foco em eficiência alimentar): atua regulando e fracionando o apetite do gado ao longo do dia, evitando picos de fermentação. É a molécula da máxima eficiência, fazendo o animal produzir mais quilos de carne consumindo menos sacas de ração, sendo ideal para a fase de acabamento final.
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Dosagem de precisão para a formulação do cocho
Respondendo à dúvida técnica de um internauta sobre o percentual e a quantidade exata de inclusão dessas moléculas na formulação da ração, o consultor trouxe as métricas oficiais de fábrica:
- Narasina: a dosagem recomendada é de exatamente 13 mg por quilograma de matéria seca (mg/kg de MS) ingerida. O nutricionista calcula a inclusão no núcleo ou na ração comercial com base no consumo esperado do lote.
- Monensina sódica: possui uma régua de inclusão mais flexível, variando de 15 a 33 mg por quilograma de matéria seca (mg/kg de MS). Para sistemas intensivos de confinamento de alta energia e TIP, a média de cabeceira adotada com sucesso pelo mercado é de 28 mg/kg de MS.
O bônus ambiental: transformando gás em arrobas de carne
Além do ganho produtivo e do controle de distúrbios metabólicos, os ionóforos desempenham um papel crucial na sustentabilidade da pecuária de corte, reduzindo a pegada de carbono do rebanho:
O metano entérico gerado pela digestão do boi representa um pesado dreno e desperdício de energia para o organismo animal. Ao otimizar as rotas de fermentação ruminal, as moléculas barram a perda de hidrogênio e reduzem severamente a emissão de gases por parte da ruminação. O hidrogênio que seria expelido na atmosfera é redirecionado pelo metabolismo para formar energia líquida, gerando mais glicose para o boi construir músculo e gordura de cobertura de forma sustentável.
O ‘boom’ da intensificação no Brasil Central
A adoção de tecnologias de cocho ganha força em um momento de forte expansão da engorda intensiva no país. O mercado nacional caminha para a marca de 10 milhões de cabeças confinadas por ano, com destaque para o estado de Mato Grosso.
Conforme levantamentos do IMEA, o estado projeta um crescimento de 55% nas intenções de confinamento para esta temporada, impulsionado pela alta disponibilidade de coprodutos da indústria do etanol de milho (como o DDG e o WDG). O especialista destacou também o avanço do conceito Beef on Dairy (cruzamento de corte em matrizes de leite) no Sul e Sudeste, com machos pesados sendo terminados em estruturas de cocho anexa à atividade leiteira.
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