
Um dos gargalos mais desafiadores, custosos e recorrentes da pecuária de cria é o manejo de bezerros guachos — aqueles animais que são rejeitados pelas mães logo após o parto, principalmente por novilhas de primeira viagem (primíparas).
Em entrevista ao Giro do Boi, o médico veterinário e consultor da Foco Consultoria, Lucas Oliveira, apresentou os resultados alcançados na Fazenda Santa Luzia, propriedade do Grupo JBJ localizada no município de Aruanã, em Goiás.
Administrando um volume gigante de mais de 20 mil nascimentos por ano, a fazenda em Goiás reduziu a mortalidade de animais rejeitados em 37% e obteve uma economia líquida de mais de R$ 400 mil em apenas uma safra. O resultado foi conquistado ao estruturar um bezerreiro profissional com sistema de mamadeiras coletivas e rotinas rígidas de aleitamento artificial, provando que o tratamento correto desses animais evita que o lucro da cria vire carcaça no pasto.
Confira:
O case de sucesso da Fazenda Santa Luzia: redução de mortes e R$ 402 mil salvos
A Foco Consultoria, que gerencia dados de 90 propriedades e um rebanho de 25,5 milhões de cabeças, utilizou seu banco de dados de mais de 40 mil partos para implementar os processos na Fazenda Santa Luzia. Os números consolidados na comparação entre safras revelam o impacto direto da metodologia no fluxo de caixa:
- Queda na mortalidade: o índice de mortes dentro do bezerreiro despencou de 2,25% na safra anterior para apenas 1,41% na safra atual, gerando a eficiência de 37% de redução na mortalidade.
- Estoque de cabeceira salvo: a otimização dos processos garantiu a sobrevivência de 166 bezerros vivos a mais que iriam a óbito sem a intervenção.
- Retorno financeiro líquido: multiplicando os animais salvos pelo valor de mercado do bezerro de cabeceira, a fazenda injetou mais de R$ 400 mil de lucro puro no caixa, pagando com sobra toda a estrutura de insumos e mão de obra.

A estrutura do bezerreiro industrial: mamadeira de caixa d’água
Para dar escala ao aleitamento artificial de corte, a propriedade adaptou técnicas de manejo intensivo da pecuária de leite, criando uma linha de trato prática e altamente higiênica:
- O sistema coletivo: o manejo utiliza caixas d’água limpas de 150 a 200 litros equipadas nas laterais com 6 a 8 bicos de mamadeira veterinária. Isso permite que vários animais se alimentem juntos, otimizando o tempo e a mão de obra da peonada.
- A rotina e o alimento: os guachos recebem o trato duas vezes ao dia (manhã e tarde). Utiliza-se um sucedâneo lácteo de alta qualidade (leite em pó industrializado), diluído em água limpa e aquecida a cerca de 40°C.
- Assepsia absoluta e nutrição de rúmen: Como o leite azeda rápido e atrai patógenos, as caixas e bicos são lavados com detergente após cada trato, e o piso é desinfetado com cal viva ou amônia. Além disso, os animais têm acesso ao cocho de creep feeding com concentrado peletizado, feno e capim para acelerar o desenvolvimento do rúmen.

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A matemática do retorno: a régua dos R$ 1.700 por cabeça
Muitos produtores deixam o bezerro guacho morrer por acreditarem que o custo do leite em pó e do trato não compensa o esforço. O consultor abriu a planilha de custos da propriedade para desmistificar essa percepção.
O ciclo completo de um animal dentro do bezerreiro dura entre 100 e 110 dias (cerca de 3 meses e meio). Somando o sucedâneo, as vacinas, os medicamentos de entrada e a ração peletizada, o custo totalizado fica em R$ 1.700,00 por bezerro.
Considerando o preço do bezerro em 2026, o zootecnista apontou que o ponto de equilíbrio financeiro da estrutura exige uma taxa de sobrevivência mínima de 52%. Acima dessa marca, salvar o guacho torna-se uma atividade altamente lucrativa.

O tamanho do gargalo nacional e a importância dos primeiros 3 meses
Estatísticas da consultoria apontam que entre 2% e 3,5% (média de 3%) de todos os animais nascidos no Brasil são rejeitados pelas mães. Em um cenário nacional de 50 milhões de partos ao ano, estamos falando de 1,5 milhão de bezerros guachos anuais.
Se o animal não receber colostragem precoce nas primeiras 6 horas e uma rotina rigorosa de alimentação nos primeiros três meses de vida, seu desenvolvimento corporal será severamente afetado. O subdesenvolvimento nessa fase compromete o ganho de peso na recria e engorda, resultando em menor rendimento de carcaça no frigorífico.
Nas fêmeas, a restrição nutricional precoce afeta o aparelho reprodutivo, transformando-as em novilhas tardias e com baixa habilidade materna no futuro. Além disso, dados da consultoria provam que um animal que sobrevive a uma infecção de umbigo (onfaloflebite) amarga uma perda crônica de 5% no seu desempenho de ganho de peso pelo resto da vida.

O mito da primípara e o impacto da adubação nas pastagens
Muitos criadores cometem o erro de misturar novilhas de primeira viagem com vacas paridas velhas no pasto de maternidade, acreditando que as jovens aprenderão por imitação. Lucas Oliveira alerta que ocorre o oposto: a vaca multípara experiente, com forte instinto, costuma “roubar” a cria da novilha, deixando a primípara sem bezerro e gerando desorganização no eito da maternidade. O correto é isolar as novilhas em piquetes exclusivos.
Além disso, o manejo de pastagens interfere diretamente no índice de guachos. Invernadas que recebem adubação intensiva sem o manejo correto de altura formam torceiras de capim muito altas e densas. Esse excesso de massa esconde o bezerro recém-nascido, isolando o filhote da mãe nas primeiras horas de vida e quebrando o reconhecimento olfativo entre eles, o que eleva as taxas de abandono.
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