
No quadro “Giro do Boi Responde” desta terça-feira (30), o engenheiro agrônomo Marcius Gracco respondeu em detalhes à dúvida enviada pelo pecuarista João Benetti, do município de Piraju, no interior de São Paulo. Seu João relatou que possui um piquete com alta densidade de árvores e questionou até que ponto a sombra ajuda ou começa a atrapalhar o eito da sua pastagem.
Gracco estabeleceu com clareza o limite entre o benefício e o prejuízo no sistema. Enquanto as árvores atuam como grandes aliadas da pecuária ao garantir conforto térmico, reduzir o estresse calórico e elevar o Ganho Médio Diário (GMD) do rebanho, o excesso de sombreamento transforma-se em um grave prejuízo quando bloqueia a luz solar indispensável para o capim, fazendo o pasto definhar. O especialista explicou como identificar esse equilíbrio e apontou quais as melhores soluções agronômicas para o produtor paulista.
Confira:
O equilíbrio necessário: conforto do boi vs. fome do capim
O sombreamento é uma ferramenta fantástica na pecuária moderna de ciclo curto. A presença de árvores dispostas estrategicamente nos piquetes, ao redor das praças de alimentação ou no centro de manejo promove uma redução drástica na temperatura interna dos animais. Com menos estresse calórico, o boi passa mais tempo pastejando em vez de gastar energia para dissipar calor, o que impulsiona o rendimento de carcaça.
Por outro lado, o eito da planta forrageira obedece a regras biológicas rígidas. O capim é uma máquina solar que necessita de luz direta para realizar a fotossíntese — processo biológico que converte a energia luminosa em energia química, gerando folhas verdes, tenras e nutritivas.
Se a densidade das copas for excessiva, ocorre um bloqueio solar severo. Sem luz, a produtividade da pastagem despenca: o pasto fica ralo, amofinado, perde a capacidade de perfilhamento e abre espaço para a degradação e a invasão de plantas daninhas.
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Cultivares de tecnologia: as brachiarias tolerantes à sombra
Para os produtores que possuem invernadas com alta densidade de árvores nativas ou que trabalham com Sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), a pesquisa agropecuária desenvolveu sementes específicas para contornar o déficit de luz.
No mercado atual, já existem cultivares de Brachiaria especificamente selecionados por sua alta tolerância ao sombreamento. Essas plantas conseguem manter uma excelente taxa de fotossíntese e acúmulo de matéria seca mesmo operando sob luz filtrada.
As grandes recomendações técnicas consagradas para essa finalidade são a Brachiaria brizantha cv. BRS Piatã (altamente testada em eitos de integração) e a BRS Ipyporã, que se destaca pela excelente cobertura de solo em ambientes sombreados.
Estratégia estolonífera: cobertura eficiente sob a copa
Outra rota de manejo cirúrgica para o eito do Seu João em Piraju (SP) é optar por espécies de crescimento estolonífero, que se multiplicam de forma vegetativa emitindo estolões (ramas que rastejam rente ao solo e soltam novas raízes nos nós).
Plantas do gênero Cynodon (como o Tifton e o Coastcross) e a própria Brachiaria humidicola adaptam-se com facilidade a ambientes com restrição luminosa, tendo a capacidade de “caminhar” e fechar o solo embaixo das copas das árvores.
O agrônomo faz apenas uma ressalva quanto ao uso da humidicola no Brasil Central: embora seja rústica e cubra bem o solo na sombra, trata-se de um cultivar que apresenta maior sensibilidade ao ataque das cigarrinhas-das-pastagens, exigindo monitoramento fitossanitário constante.
Colocar o componente florestal na fazenda é um golaço para o bem-estar animal e para a valorização da sua arroba, mas o eito não aceita amadorismo na escolha da semente. Deixar o pasto comum morrer na sombra por falta de luz ou insistir em capins exigentes de pleno sol embaixo de árvores adensadas é queimar dinheiro. Siga o conselho do especialista: avalie a densidade de árvores da sua invernada, adote variedades tolerantes ao sombreamento como a BRS Piatã ou aposte no poder de cobertura das plantas estoloníferas.
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