
O planejamento da produção de pasto é o principal fator para manter a rentabilidade da pecuária durante o período seco. O alerta é do engenheiro-agrônomo e doutor em Ciência Animal e Pastagens José Renato Silva Gonçalves, responsável pela Fazenda Figueira, da Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq), ligada à Esalq/USP.
Em entrevista ao Giro do Boi, o pesquisador afirmou que o produtor deve enxergar a fazenda como uma conta bancária. “A produção do pasto é a entrada, o consumo do gado é a saída”. A comparação resume um dos principais desafios enfrentados pela pecuária brasileira na estiagem.
Durante a seca, o crescimento das pastagens diminui drasticamente, reduzindo tanto a quantidade quanto a qualidade da forragem disponível. Se o consumo dos animais continuar acima da capacidade de produção do pasto, o sistema entra em desequilíbrio e compromete o desempenho do rebanho.
De acordo com José Renato, muitos produtores dimensionam a lotação com base na abundância de forragem do período chuvoso e não consideram a queda na capacidade de suporte ao longo do inverno. Quando isso acontece, a alternativa passa a ser reduzir o número de animais na área ou investir em suplementação, geralmente mais cara quando não houve planejamento prévio.
O pesquisador destaca que cerca de 70% a 80% da produção anual de pasto ocorre durante o período das águas, enquanto apenas 20% a 30% é produzida na seca. Por isso, preparar a propriedade para essa sazonalidade é indispensável. Segundo ele, todo o ganho obtido durante a estação chuvosa pode ser perdido caso o produtor não se organize para enfrentar os meses de menor oferta de forragem.
Confira:
Ganho compensatório aumenta os prejuízos na pecuária
Outro problema é o chamado ganho compensatório. Animais que perdem peso durante a seca precisam primeiro recuperar esse peso quando as chuvas retornam para, só depois, voltar a ganhar arrobas. Na prática, o pecuarista perde tempo e produtividade, prolongando o ciclo de produção.
Para evitar esse cenário, José Renato defende que o manejo do pasto seja baseado na capacidade real de suporte de cada área, considerando fertilidade, época do ano e disponibilidade de forragem. “A alta lotação é um caminho para a degradação do pasto“, alertou, reforçando que o número de animais deve ser ajustado conforme a oferta de alimento.
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Manejo do pasto reduz custos e melhora a produtividade
Na Fazenda Figueira, a estratégia é sincronizar as exigências nutricionais dos animais com os períodos de maior produção de pasto. O sistema também utiliza integração lavoura-pecuária, reserva de áreas para pastejo diferido e confinamento como ferramenta de manejo, preservando as pastagens durante a seca e mantendo o fluxo de produção ao longo do ano.
Quando o planejamento falha e a propriedade chega à estiagem sem silagem, feno ou outras reservas volumosas, o especialista recomenda priorizar os investimentos nas categorias mais próximas da comercialização. Dessa forma, o produtor consegue recuperar mais rapidamente o capital investido na suplementação e preservar o fluxo de caixa da fazenda.
Não existe ‘capim milagroso’ para enfrentar a seca
José Renato também ressalta que não existe “capim milagroso” para enfrentar o inverno. A escolha das forrageiras deve considerar espécies que mantenham maior proporção de folhas durante o período seco, além de estratégias de reserva de pasto e suplementação nutricional adequada.
O pesquisador reforçou também que produzir arrobas de baixo custo depende, sobretudo, de planejamento. Como a maior parte do rebanho brasileiro é criada a pasto, o sucesso da atividade está diretamente ligado à capacidade de produzir forragem de forma eficiente durante todo o ano, mantendo produtividade, custos sob controle e margem positiva para o pecuarista.
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