TECNOLOGIA NO CAMPO

Embrapa usa inteligência artificial para mapear invasoras em lavouras e pastagens

Sistema com 99% de precisão consegue prever o surto de plantas daninhas na ILP, gerando economia extrema com aplicação cirúrgica de herbicidas

Foto: Divulgação.
Foto: Divulgação.

Uma revelação científica promete revolucionar o controle de plantas daninhas no Brasil. Um estudo da Embrapa Milho e Sorgo (Sete Lagoas – MG), em cooperação estratégica com a Universidade do Vale do Itajaí (Univali – SC), usa inteligência artificial para mapear, compreender e prever com exatidão cirúrgica a dinâmica de plantas invasoras em sistemas integrados de produção de carne e grãos.

A tecnologia, que alcançou a marca de 99% de precisão em seus ensaios, utiliza dados de clima, solo e culturas para indicar o tipo exato e a dosagem recomendada de herbicida por talhão, promovendo extrema economia para o bolso do produtor e mitigação de impactos ambientais.

Em entrevista ao Giro do Boi, o engenheiro agrônomo e pesquisador da entidade, Dr. Maurilio Fernandes de Oliveira, deu mais detalhes sobre a tecnologia.

Confira:

O big data de 25 anos que alimenta o algoritmo

Diferente de soluções tecnológicas desenvolvidas sem fundamentação prática, o algoritmo de inteligência artificial da Embrapa foi construído sobre uma base científica de campo extremamente sólida:

A máquina foi alimentada com dados reais de uma área experimental de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) da Embrapa que conta com quase 25 anos de monitoramento contínuo.

A equipe do Dr. Maurílio gerou o histórico agronômico (população de plantas daninhas, tipos de solo, sucessão de culturas e dados climáticos do Cerrado) enquanto o corpo técnico de Santa Catarina aplicou os modelos matemáticos e algoritmos de IA para processar o Big Data e calibrar a inteligência do sistema.

A métrica das quatro épocas: o segredo da previsão

Os experimentos científicos foram conduzidos em quatro tipos de culturas de ILP: milho consorciado com braquiária, sorgo com braquiária, soja solteira e pastagem solteira de braquiária.

Para que o sistema consiga prever o surto de invasoras antes mesmo que elas apareçam, as amostragens de campo são rigorosamente divididas em quatro períodos do ano:

  1. Final do inverno (seca): avaliação do banco de sementes e das plantas remanescentes no solo antes do semeio da safra principal.
  2. Primeiras chuvas (outubro/novembro): coleta de dados no momento em que a umidade inicial estimula a germinação em massa das invasoras.
  3. Antes do manejo químico: amostragem precisa feita imediatamente antes da aplicação dos herbicidas de manejo nas lavouras.
  4. Pré-colheita: checagem final para identificar quais espécies de daninhas conseguiram sobreviver ou driblar o sistema de rotação.

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O impacto econômico: o fim do método curativo tradicional

Maurílio destacou que prever o aparecimento da praga é muito superior ao método curativo tradicional, que consiste em esperar o pasto ser infestado para depois gastar uma fortuna com aplicações generalizadas.

O pesquisador revelou um dado avassalador: a Embrapa não aplica um único litro de herbicida em suas pastagens rotacionadas há muitos anos. O sistema de ILP, quando planejado de forma correta e monitorado pela dinâmica de palhada, naturalmente abafa as sementes e suprime a população de invasoras.

Para o produtor que gasta altos valores com óleo diesel, hora-máquina, mão de obra e galões de defensivos químicos, a ferramenta reduz drasticamente os custos ao prescrever aplicações localizadas, na dosagem mínima necessária e apenas onde o problema se manifestará.

Robôs importados versus o aplicativo democrático da Embrapa

Respondendo a dúvidas de telespectadores sobre o receio de a inteligência artificial ser uma tecnologia cara e restrita a grandes grupos econômicos, o pesquisador desmistificou o cenário:

  • O gargalo dos sistemas importados: atualmente, as tecnologias de aplicação inteligente com sensores óticos acoplados às barras dos pulverizadores ou robôs de campo são importadas da Europa ou dos Estados Unidos. São ferramentas caríssimas e que utilizam bancos de imagens estrangeiros, que não refletem fielmente as plantas daninhas tropicais do Brasil.
  • A solução nacional e acessível: o projeto da Embrapa está desenvolvendo uma plataforma nacional que rodará diretamente em um aplicativo de celular ou tablet. O produtor inserirá os dados básicos da sua propriedade e o algoritmo emitirá os comandos de manejo preventivo ou curativo. É a democratização da tecnologia para propriedades de todos os portes.

A inteligência artificial na agropecuária brasileira deixou de ser assunto de ficção científica para se tornar uma realidade lucrativa na planilha do produtor rural. O trabalho conduzido pela Embrapa Milho e Sorgo prova que o futuro do agronegócio pertence à eficiência preditiva.

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