Redes de apoio podem ajudar pecuarista a transformar sustentabilidade em rentabilidade

Em entrevista ao Giro do Boi, Fernando Sampaio, diretor executivo do Instituto PCI (MT), falou sobre a importância do suporte ao produtor no processo de regularização ambiental

Em entrevista ao Giro do boi nesta quarta, dia 02, o engenheiro agrônomo Fernando Sampaio, diretor executivo do Instituto PCI – Produzir, Conservar e Incluir, do estado de Mato Grosso, concedeu entrevista ao Giro do Boi. O profissional atualizou informações sobre o processo de inclusão dos produtores rurais neste momento recente de busca por soluções sustentáveis para o setor e regularização ambiental.

Anteriormente, Fernando demonstrou sua preocupação em um artigo de sua autoria (relembre no link abaixo). Ele alertou para que o setor tivesse cuidado para evitar possível exclusão em massa de produtores ao longo do processo de transição verde, conforme classificou a atual cobrança pela sustentabilidade na produção de alimentos.

De acordo com o agrônomo, o processo poderia ser consequência de uma pirâmide onde a base de produtores de gado de corte tem dificuldades com as mudanças e cobranças da legislação ambiental. Ao mesmo tempo, o topo da pirâmide, composta por produtores com maior capacidade de investimento, poderia representar um desequilíbrio na situação.

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INCLUSÃO

Assim, Sampaio resumiu as dificuldades impostas pela situação. “Tem um desafio muito grande porque a gente não quer excluir ninguém. Contudo, você nunca vai resolver um problema através de exclusão. Se o pecuarista não tem a documentação, ou se ele desmatou um pedacinho da fazenda e agora não consegue vender a produção dele, como você traz esse produtor para dentro da cadeia produtiva novamente? Sem excluir, ele consegue fazer essa regularização e continua comercializando. Eu acho que esse é um desafio muito grande”, disse em resumo.

Nesse sentido, o agrônomo lembrou que não só o poder público, como também as empresas estão atuando para que isso ocorra. “A gente tem hoje redes de apoio. Algumas empresas, como a própria JBS, tem os Escritórios Verdes, que apoiam esse produtor a se regularizar. A gente, no PCI, está criando também centros de atendimento onde esse produtor pode fazer esses cadastros. O Instituto Mato-grossense da Carne criou o processo de reinserção de produtores, onde ele pode continuar comercializando ao mesmo tempo em que faz essa reinserção, essa regularização. Assim, existem várias alternativas surgindo para o produtor não ser excluído, para ele entrar num caminho de regularização e continuar comercializando”, celebrou.

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Além disso, Sampaio projeto novas iniciativas dentro desta rede de apoio. “A gente quer criar mecanismos de apoio e suporte para esse produtor se regularizar e comercializar. Então existe toda essa rede de apoio. A PCI hoje tem um grande guarda-chuva de projetos acontecendo com a Empaer aqui, com outras organizações. Projetos de apoio à pecuária sustentável que têm assistência técnica voltada para a parte produtiva, mas também para a parte ambiental, de regularização. Esses projetos envolvem, inclusive, rastreabilidade”, salientou.

TRANSFORMANDO EM RENDA

Em seguida, o especialista lembrou que o processo de transição verde pode ocorrer de maneira natural porque a sustentabilidade tem ligações diretas com produtividade e, mais do que isso, oportunidades de capturas de valor. “Você falou sobre o produtor se financiando com ativos ambientais. A gente tem essa agenda de carbono, que está entrando na lógica de negócios das empresas. Então como isso pode virar mecanismo para ajudar o produtor a se financiar, a aceitar recursos e investimentos? Portanto eu acho que tem uma oportunidade também para a se explorar”, projetou.

De acordo com o agrônomo, a pecuária produtiva torna-se, nesse cenário, solução para a preservação do meio ambiente. “A gente sabe o quão produtiva a pecuária pode ser, o quanto ela pode ser eficiente e ajudar a capturar carbono. Então o nosso trabalho também é mostrar que essa atividade pode ser muito sustentável. Com manejo adequado, ela pode, inclusive, sequestrar carbono, e não emitir. […] Dessa forma, a boa notícia é que, ao ser mais eficiente, você está ganhando mais dinheiro também e isso vai ser cada vez mais valorizado”, analisou.

Enfim, Sampaio vislumbrou que em breve o produtor poderá capitalizar de modo bem prático a sua vocação para a sustentabilidade. “Cada vez mais a gente vai ter novas oportunidades surgindo, seja em torno de vegetação nativa, reserva legal, APPs, crédito de carbono. Eu acho que tudo isso vai virar instrumento para ajudar a financiar a produção e trazer mais rentabilidade para esse produtor”, declarou.

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PRIMEIROS PASSOS

Em conclusão, Sampaio falou ainda sobre como os próprios produtores podem evitar o processo de exclusão neste processo de transição. Primeiramente, deve-se buscar entender o caso de sua propriedade, consultando bancos de dados para checar possíveis embargos e pendências. Posteriormente, buscar o suporte da rede de apoio de órgãos públicos e empresas privadas que oferecem soluções para a regularização.

Por último, assista em vídeo a entrevista completa com Fernando Sampaio:

Foto ilustrativa: Junior Silgueiro / GComMT