
O terceiro episódio da série especial baseada no livro “No Pasto é Mais Barato”, publicado pelos professores e zootecnistas Janaína Martuscello e Manoel Santos, trouxe um direcionamento cirúrgico para os pecuaristas: os critérios científicos para selecionar a planta forrageira ideal para cada propriedade.
O recado da especialista joga por terra o “achismo” na hora de adquirir os insumos. Não existe capim milagroso, o segredo está no correto manejo de cada variedade, na adubação, no ajuste da taxa de lotação, no descanso dos piquetes e no respeito rigoroso às alturas de entrada e saída.
Martuscello destaca que escolher a gramínea ideal com critérios técnicos, avaliando o solo, o relevo e o clima, é o primeiro passo obrigatório para aumentar a eficiência da fazenda e garantir o máximo retorno econômico, permitindo que o capim expresse seu teto produtivo com sustentabilidade.
Confira:
O motor do giro rápido: alta produtividade e o gênero Panicum
Para o produtor que busca ganho de peso acelerado e alta taxa de lotação (UA/ha), a regra de ouro é evitar plantas de baixo acúmulo de biomassa. É preciso produzir muita matéria seca por dia para sustentar a engorda intensiva.
Se a fazenda possui solo corrigido, boa oferta de água e gestão de manejo, os capins do gênero Panicum (Megathyrsus) são imbatíveis em acúmulo diário de forragem. Cultivares como Mombaça, Paredão, Miyagi, Zuri e Tamani são plantas espetaculares para o pastejo rotacionado. Elas possuem uma velocidade de rebrota avassaladora e suportam cargas pesadas de lotação na TIP (Terminação Intensiva a Pasto).
A especialista quebrou o mito de que as braquiárias servem apenas para a pecuária extrativista ou de baixa performance. Ela revelou os resultados de um ensaio técnico impressionante: “Nós conduzimos um trabalho de pesquisa de alta precisão onde conseguimos trabalhar com uma taxa de lotação de 5,0 UA/ha em pastagem de Brachiaria decumbens (braquiarinha). O segredo? Solo corrigido na calagem, adubação constante de reposição de nutrientes e manejo cirúrgico na altura exata”. A gramínea responde sim à intensificação.
O filtro do clima: adaptando a semente aos extremos regionais
Embora a grande maioria das forrageiras tropicais se desenvolva com vigor na imensidão do Brasil Central, o produtor precisa ter os pés no chão se estiver inserido em ecossistemas com restrições severas:
- Estresse por excesso (Pantanal/solos encharcados): regiões sujeitas a longos períodos de inundação exigem plantas com alta tolerância à falta de oxigênio na raiz (hipóxia). Nesse eito, a rainha absoluta é a Brachiaria humidicola, que suporta o encharcamento como nenhuma outra.
- Estresse por escassez (Nordeste/Semiárido): ambientes com baixo regime de chuvas demandam plantas com mecanismos agressivos de tolerância à seca. As opções de cabeceira se concentram no capim-buffel, no Andropogon e, mais recentemente, no capim piatã, que conseguem manter a mantença e o escore do gado mesmo sob baixíssima precipitação.
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O filtro do relevo: proteção eficiente contra a erosão
O formato da topografia define o hábito de crescimento da gramínea que deve ser semeada. Errar nessa escolha pode expor o solo e causar a degradação acelerada de encostas:
- Áreas onduladas e morros: propriedades acidentadas possuem um potencial mecanizável menor, mas são perfeitamente passíveis de intensificação. A exigência técnica é escolher plantas de crescimento decumbente ou estolonífero, que formam um “tapete” denso e rasteiro. Cultivares como a Brachiaria decumbens e o híbrido Ipyporã fazem uma excelente cobertura de solo, blindando a terra contra erosões e sulcos provocados por enxurradas.
- Áreas planas: abrem caminho para plantas de crescimento ereto em touceiras (como os coloniões), que facilitam o manejo de pastejo rotacionado e a entrada de tratores para a distribuição uniforme de adubos.
O filtro do solo: a física e a química mandam na escolha
Antes de investir na compra das sementes, o pecuarista tem a obrigação de realizar a análise de solo da invernada, pois o tipo de terra dita a capacidade de suporte da forragem:
- Solos arenosos: exigem plantas rústicas e com sistema radicular profundo, capazes de buscar umidade em camadas inferiores e tolerar a baixa retenção de nutrientes típica da areia.
- Solos argilosos: suportam e fixam cultivares muito mais exigentes em fertilidade, respondendo com máxima eficiência à adubação pesada de nitrogênio.
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