INOVAÇÃO NA PECUÁRIA

Chega de hora extra no cocho: Embrapa usa drones e IA para indicar a hora certa do abate

Tecnologia faz a pesagem volumétrica do gado por imagem, eliminando o estresse do curral e gerando economia de até 8% no custo da ração

Foto: Divulgação/Embrapa.
Foto: Divulgação/Embrapa.

O Giro do Boi desta terça-feira (23) apresentou uma das inovações mais revolucionárias da pecuária brasileira. Um sistema criado pela Embrapa combina drones e inteligência artificial para monitorar o crescimento de bovinos em confinamento e pode ajudar pecuaristas a identificar o momento ideal de venda ou abate dos animais, reduzindo custos e aumentando a eficiência produtiva.

Em entrevista ao programa, o pesquisador e engenheiro elétrico Dr. Jayme Garcia Barbedo, pós-doutor pela Universidade de Harvard (EUA), deu detalhes sobre a ferramenta.

Confira:

O gargalo do cocho e a curva de inflexão em “S”

O Dr. Jayme Barbedo explicou que todos os animais em engorda seguem um padrão biológico de crescimento conhecido na ciência como a Curva em S (ou curva sigmoide), dividida em três fases: arranque lento, ganho acelerado e o platô de estagnação (ponto de inflexão).

Chega um momento no confinamento em que o metabolismo do boi muda: ele passa a consumir a mesma quantidade de ração cara, mas a taxa de deposição de tecido cai drasticamente, entrando em estabilidade de peso.

Como a alimentação de cocho (insumos como milho, farelo de soja e DDG) representa até 90% dos custos operacionais de um confinamento, manter o boi fazendo “hora extra” após atingir esse platô queima a margem de lucro. A IA da Embrapa capta exatamente o dia em que ocorre esse ponto de inflexão, emitindo um alerta para o produtor liquidar o lote.

Os benefícios no bolso: economia no trato e estresse zero

Os testes de validação de campo entregaram resultados econômicos robustos que impressionaram o setor. A exatidão ao retirar o lote do confinamento no dia correto gerou uma redução real entre 7% e 8% no custo alimentar total. Em uma atividade de margens estreitas, gastar menos com ração se traduz em lucro líquido direto no caixa.

Pelo método tradicional, o pecuarista precisa apartar o lote e correr o gado até o tronco mecânico. Esse manejo agressivo gera reações de estresse severas, que fazem o gado perder preciosas gramas de Ganho Médio Diário (GMD) e prejudicam o pH da carne. Com a biometria aérea por drone, o estresse é zero, pois a pesagem é feita por imagem digital enquanto o boi permanece calmo na baia.

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O campo de testes: parceria com a Fazenda Campanário

A pesquisa inovadora da Embrapa Digital foi conduzida no município de Laguna Carapã (MS), em uma cooperação com a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) — sob a coordenação do professor Émerson Falconi —, a USP de Ribeirão Preto e a USP de São Carlos.

O eito de testes foi acolhido pela tradicional Fazenda Campanário, de propriedade do pecuarista visionário Renato Eugênio. O experimento atual foi validado com lotes de machos Nelore puros, e a Embrapa já planeja expandir a tecnologia para sistemas extensivos (a pasto), fases de recria e rebanhos de cruzamento industrial. A previsão de lançamento comercial do software no mercado agropecuário está programada para 2027.

O futuro do vaqueiro na era da inteligência artificial

Respondendo a questionamentos dos produtores sobre o receio de a Inteligência Artificial extinguir a profissão dos vaqueiros no campo, o Dr. Jayme Barbedo foi contundente.

Segundo ele, “o vaqueiro ruim, aquele que opera no extrativismo e não quer evoluir, esse sim está com os dias contados. Mas o vaqueiro bom, o capataz caprichoso que se aperfeiçoa, faz os treinamentos gratuitos de pilotagem de drone do SENAR e aprende a ler os relatórios de dados da IA, esse profissional será disputado a peso de ouro pelo mercado. A máquina veio para apoiar o elemento humano, e não para substituí-lo.”

A meta de curto prazo da Embrapa é tornar os drones 100% autônomos, programados para decolar em horários fixos, capturar as imagens, descarregar os dados na nuvem e retornar sozinhos para a base de carregamento, deixando a equipe focada estritamente nas decisões estratégicas da fazenda.

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