Projetos de pecuária sustentável do Brasil podem se beneficiar de crédito internacional

Executivo da NWF Brasil Francisco Beduschi Neto justificou por que a pecuária brasileira pode captar recursos externos com iniciativas de sustentabilidade

Em entrevista concedida ao Giro do Boi desta quinta, dia 11, o engenheiro agrônomo Francisco Beduschi Neto, especialista em agricultura sustentável e executivo da organização sem fins lucrativos National Wildlife Federation no Brasil, apontou quais são as oportunidades que projetos brasileiros de pecuária sustentável têm para captar recursos internacionais. Ele utilizou como exemplo o anúncio do novo governo dos EUA de um montante de US$ 20 bilhões que potencialmente podem ser investidos na conservação de florestas.

“Nós temos um ativo ambiental no Brasil que nós precisamos saber utilizar, tanto a nosso favor, em termos de propaganda da nossa produção – quer dizer, nós produzimos e ainda temos um ativo ambiental – como para poder captar dinheiro. E uma das fontes de recursos são essas, como as da promessa de campanha do Biden, de US$ 20 bilhões”, comentou.

O executivo da NWF Brasil citou exemplos de iniciativas com potencial para receber o aporte de investidores internacionais. “Um exemplo prático veio agora recentemente do pessoal do Produzindo Certo, que é um programa de apoio a pecuaristas aqui no Cerrado. Ele captou em green bonds R$ 63 milhões. Quer dizer, tem dinheiro internacional. O que nós precisamos fazer? Mostrar que nós estamos fazendo de uma forma correta e conciliando produção e preservação. Se a gente fizer isso, dinheiro a gente vai poder acessar”, projetou.

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“A Liga do Araguaia é uma delas (das iniciativas). Lá no Pará você tem excelentes iniciativas. A Acripará recentemente lançou uma plataforma (Sirflor) que ajuda os produtores rurais a regularizar os seus passivos ambientais, tudo online. O pecuarista vai entrar, preencher documentos e é óbvio que vai ter todo o trabalho de campo e assessoria técnica, mas essa plataforma facilita tudo isso. Aqui em Mato Grosso você tem outras iniciativas. Em Mato Grosso do Sul tem o Precoce MS, tem o pessoal do Pantanal produzindo carne orgânica. No Rio Grande do Sul a gente tem a Alianza del Pastizal, que produz dentro do Pampa gaúcho, preservando aquele bioma maravilhoso. Então o Brasil tem informação para dar e vender, mas o consumidor quer saber e não quer saber só onde o boi foi engordado, ele quer saber quem é que produziu o bezerro. Então transacionar informação, repassar informação da cadeia toda e fazer essa informação chegar a quem está comprando a nossa carne vai ser de suma importância daqui para frente”, opinou Beduschi.

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O agrônomo justificou a demanda pelo fortalecimento de iniciativas de produção sustentável. “Conscientização do consumidor. O consumidor é quem dita as regras do mercado. Ou melhor, dita as regras dos produtos que ele quer consumir. E com o consumidor cada vez mais informado, disseminação de informação pelos mais diversos meios, esse consumidor começa a questionar o que está consumindo, quais os impactos daquilo que ele está consumindo e ele quer saber cada vez mais. Isso não é só em relação à pecuária, mas a todos os produtos que ele consome e nós estamos dentro deste pacote”, justificou.

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Beduschi comentou a complexidade de resolver questões ambientais dentro de um setor gigante, como é o agro brasileiro. “Eu diria que não existem nem vilões e nem mocinhos nessa história. O que existe são os países que estão produzindo e vendendo mundo afora. Em termos de produtos do agronegócio, o Brasil é um grande player internacional e, como grande player nesse mercado, a gente tem que cumprir o nosso papel de produzir e preservar ao mesmo tempo. E saber comunicar ao consumidor o que a gente faz da porteira. E não é mais comunicar como a gente está lidando com tudo isso a nível de país mas a nível de propriedade rural específica”, salientou.

“É como a gente sempre repete: uma única gota de iodo dentro de um jarro grande d´água vai comprometer a água toda. Então um único produtor – e são poucos, vamos ser claros, são poucos os produtores que fazem errado – que faz errado mancha a imagem de todo o agronegócio brasileiro”, alertou.

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De acordo com o executivo, o país deve aproveitar o momento para tomar a frente das questões, e não ser mais responsivo às exigências. “Todos os mercados estão ficando cada vez mais exigentes, inclusive o nosso maior comprador. Hoje, contando China e Hong Kong, eles compram mais de 60% da nossa exportação de carne bovina. E a China também já está dando sinais de que vai começar a erguer essa régua. Então é melhor a gente se preparar para isso e na hora em que eles vieram com os questionamentos, nós poderemos mostrar o que estamos fazendo, onde estamos progredindo. É muito melhor ser proativo nesse sentido do que dizer que ainda vai fazer e depois responder”, argumentou.

Beduschi disse ainda que não só o consumidor internacional está evoluindo em termos de exigência do produto brasileiro. “É importante que a gente ressalte também que o consumidor interno, o consumidor brasileiro, vai ficar cada vez mais exigente. Isso não sou eu que estou falando. Existe um estudo que foi publicado em agosto do ano passado, um estudo do Cicarne, o Centro de Inteligência da Carne, da Embrapa, que dá um cenário muito claro de que o consumidor brasileiro também vai ficar cada vez mais exigente daqui pra frente”, apontou.

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Beduschi também falou sobre a projeção do aumento da produção de carne bovina pelo Brasil ser superior ao aumento do consumo interno, o que vai acarretar em uma busca maior pelas exportações. “Você tem o consumidor interno mais exigente, o consumidor internacional mais exigente e a nossa produção vai aumentar mais do que o consumo interno. Então nós vamos depender cada vez mais do mercado internacional. Tem também um outlook feito pelo Mapa com os números muito claros. A nossa produção cresce 16% enquanto o consumo interno cresce 10%. Então essa diferença, esses 6% de produção a mais, nós vamos jogar no mercado internacional para manter equilibrada a balança de oferta e demanda. Se eu vou colocar no mercado internacional, a gente vai ter que pulverizar pra não ficar dependente”, advertiu.

Em sua entrevista, o executivo da NWF celebrou a nova lei que regulamenta pagamentos por serviços ambientais no Brasil. “Essa nova lei é um passo gigantesco para o Brasil começar a acessar esse tipo de crédito porque ela regulamenta como que pode se dar o pagamento por serviços ambientais. A gente ainda vai ter que aguardar porque o presidente vetou alguns pontos da lei, que voltaram à discussão no congresso, mas de qualquer forma a gente já tem um aparato legal que nos ajuda nesse sentido. Por outro lado, a gente também tem um ativo ambiental que a gente tem dentro do Brasil. O que nós vamos precisar demonstrar daqui para frente é o quão perene é esse ativo, ou seja, as pessoas querem comprar ou querem pagar por serviços ambientais perenes de longo prazo e isso precisa ser demonstrado, o quanto que ele traz de adicionalidade, quanto que ele adiciona àquilo que já está sendo feito de acordo com a lei. Baseado nesses dois critérios, nós temos muita oportunidade no Brasil, já que nós temos mais de 60% do nosso território preservado”, aprovou o agrônomo.

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Confira no vídeo a seguir a entrevista completa com Francisco Beduschi Neto:

 

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