Prática arcaica, marca a fogo pode ser substituída por tecnologias modernas e mais eficientes

Conheça a fazenda em SP que, além de reduzir uso marca a fogo, introduziu outras práticas de bem-estar que melhoraram a produtividade do gado ao passo que otimizaram o trabalho da equipe

A princípio, a marca a fogo faz parte da pecuária desde o Egito antigo, conforme disse Mateus Paranhos, professor da Unesp, durante reportagem que foi ao ar no Giro do Boi desta quarta, 23. Contudo, a partir da evolução do setor e da mudança de comportamento do consumidor, o pecuarista tem atualmente alternativas que, além de modernas, são mais eficientes na gestão do gado.

Em resumo, essa é a evolução da Fazenda São Clemente, do Grupo Marcondes César em São José dos Campos-SP. A propriedade verticalizou ganhos ao adotar técnicas de bem-estar animal que vão inclusive além da redução da marca a fogo.

MUDANDO PARA MELHOR

Quem detalhou este processo foi o proprietário do grupo, Frederico Marcondes César. “Primeiramente, nós mochávamos os animais. Deixamos de fazê-lo. Atualmente fazemos a avaliação por temperamento. Um animal não agride outro, não representa risco para os funcionários”, disse.

Em seguida, Frederico listou outras práticas que a fazenda aboliu. “Nós castrávamos. Com o advento do confinamento, nós damos uma dieta rica em energia. Agora, é desnecessário fazer a castração. Além disso, nós fazíamos a inseminação convencional e passamos a fazer por IATF. […] Assim, prática dispensou a necessidade de nós fazermos touros rufiões. É uma operação dolorosa pela qual chegamos a perder vários animais”, lembrou.

SUBSTITUINDO TRADIÇÕES

Portanto, de acordo com o pecuarista, abandonar algumas tradições, como a marca a fogo, nem sempre significa algo negativo. “Agora, tem a marcação a ferro. Para se ter ideia, nós vamos deixar de fazer 15 a 18 mil marcações a ferro. Nós tínhamos 10 a 12 marcações em cada animal. Atualmente, nós estamos fazendo apenas uma, […] na altura do jarrete, na altura do joelho do animal, para identificar a marca da fazenda. O resto nós fazemos com brinco”, disse em resumo.

Juntamente com a redução da marca a fogo, a fazenda encontrou alternativas – tecnologias modernas, éticas e mais eficientes para gerir o rebanho. Segundo revelou Marcondes César, a Fazenda São Clemente substituiu a marca a fogo pelos brincos e bottons. Nesse caso, fabricados pela Allflex, empresa da divisão MSD Saúde Animal Intteligence.

“Hoje nós tocamos no animal quando? Quando ele nasce e nós brincamos. Depois disso, no protocolo sanitário de vacinas. Nada mais. O animal é contemplado em nossa fazenda e com altos resultados”, aprovou.

NOVO MANEJO

Logo depois, Frederico detalhou o manejo que substituiu a marca a fogo na Fazenda São Clemente. “Nós colocamos o brinco ao nascer, que é o número de identificação, e à desmama nós colocamos o botton. Nós achamos que a probabilidade de perda é zero. Então o animal terá sua marca para sempre. Até considerando que o macho dentro da nossa fazenda tem ciclo curto. Ele fica, no máximo, 24 meses”, compartilhou.

Juntamente com a melhoria da gestão, o pecuarista apontou benefícios paralelos na redução da marca a fogo. “Ao zerar a marcação a ferro nos animais, nós deixamos de agredi-los. Para nós, vai representar uma economia de tempo e desgaste menor para a nossa equipe. E seguramente um sofrimento menor para os animais”, aprovou.

PRÁTICA ARCAICA

Sob o mesmo ponto de vista, o professor Mateus Paranhos, da Unesp de Jaboticabal, co-fundador da BE.Animal, justificou a substituição da marca a fogo. “A marca a fogo, antes de ser um dano ao couro, é uma agressão à pele do animal. É uma tecnologia muito antiga. Desde o antigo Egito ela é utilizada. Agora, a gente dispõe de tecnologias muito mais avançadas e menos agressivas para os animais. Elas são mais eficientes do ponto de vista de controle de rebanho. Então não faz sentido, na verdade, continuar usando uma tecnologia como essa”, analisou.

Igualmente, outros países estão começando a adotar práticas semelhantes. “O mundo todo está caminhando para isso, não é só o nosso projeto aqui. Tem mudanças importantes em países da América do Norte, como Canadá e Estados Unidos. Do mesmo modo, na América do Sul tem projetos não iguais, mas em semelhante perspectiva acontecendo no Uruguai, Argentina”, citou.

Em conclusão, o vaqueiro Rodolfo Miranda, da Fazenda São Clemente, resumiu os benefícios da redução do uso da marca a fogo. “Esse ano nós reduzimos essa marca e usamos só a marca da fazenda no animal. Diminuiu muito o nosso trabalho. Por exemplo, um serviço que às vezes levava um dia inteiro para marcar um lote, nós conseguimos realizar até em dois lotes por dia. Da mesma forma, teve também diminuição de animais com bicheira, no caso a miíase, pelo excesso de queimadura. Tudo isso”, confirmou Miranda.

Por fim, assista a reportagem sobre os resultados do projeto de redução do uso de marca a fogo. Em suma, a iniciativa da consultoria BE.Animal tem parceria da JBS, Allflex e MSD Saúde Animal.

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