Fazenda desafia novilhas de 12 meses com desmama acima de 200 kg por vaca exposta

Manejo, equipe, gestão, sanidade: conheça os segredos de uma das propriedades de cria mais produtivas do Brasil, a Fazenda Cambury, em Araguaiana-MT

A Fazenda Cambury, propriedade de Estela Madeira do Val e Guilherme Luiz do Val em Araguaiana, no estado do Mato Grosso, é um dos maiores exemplos de sucesso da pecuária de cria do Brasil. A propriedade que foi formada a partir de 2011 e está chegando em 2020 à sua décima safra de bezerros, tem índices expressivos de taxa de prenhez, peso à desmama e quilos de bezerros desmamados por fêmeas expostas à reprodução.

Nesta quinta, dia 30, o gestor da propriedade, o zootecnista José Eduardo Martins Junior, que integra a equipe da fazenda desde a sua formação, contou em entrevista ao Giro do Boi alguns dos detalhes do sistema produtivo responsáveis por construir o resultado expressivo. O profissional acompanhou etapas como formação de pastos, estrutura, como curral, cochos de água e sal, divisão de piquetes, escolha da equipe e planejamento para a construção dos índices zootécnicos e financeiros desejados.

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“Esse planejamento anual que era feito na fazenda facilitava o melhor manejo dos pastos e, em 2014/15, com algumas parcerias, a gente conseguiu implantar essa melhora na estrutura dos pastos e definiu um planejamento forrageiro para seca e isso ajudou muito nos resultados. […] Nós conseguimos melhorar as reuniões, passamos a fazer reuniões mensais, trimestrais em cima de um planejamento anual e, na última safra, nós adotamos uma reunião semanal em que a gente define, em cima do planejamento anual, quais são trabalhos da semana junto da equipe. Isso tem ajudado bastante também no relacionamento entre os funcionários, o conhecimento entre os funcionários e toda a equipe, vaqueiros, tratoristas, serviços gerais, isto está sendo muito importante nos resultados”, informou o gestor.

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Com as tarefas e as funções bem definidas nas reuniões, a fazenda coloca para rodar seu planejamento. O foco é dar condição corporal às fêmeas que serão destinadas à estação de monta. Conforme informou José Eduardo, elas são apartadas conforme seu estado, que, se estiver abaixo da média do rebanho, indica que precisam de uma dieta com suplementação diferenciada, como com proteinado, para que se recupere e esteja pronta para o manejo reprodutivo. De resto, a nutrição das fêmeas é composta por pastos de boa qualidade, um sal específico para reprodução com 90 de fósforo, passando para um mineral 80 e, na seca, é feito uso de um ureado.

A estratégia de seca, conforme reforçou o zootecnista, é essencial para que a fazenda desenvolva todo o seu potencial produtivo desde a época das águas. “Você não trabalha nas águas pensando na seca. Muitas fazendas trabalham com uma capacidade de suporte aquém do que a fazenda aguenta nas águas porque está preocupada com o que vai fazer na seca. Quando você tem uma estratégia de seca, seja tratar com silagem, sequestro de animais de alguma categoria, você consegue explorar demais o potencial da fazenda nas águas, que é quando se consegue produzir bastante. Então eu acho que esta foi a grande transformação nossa, ter esta estratégia de seca bem definida”, revelou.

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Entre as estratégias de nutrição da propriedade está o creep feeding de baixo consumo para os bezerros após os 30 dias de nascimento. No pós-desmama, os bezerros passam por recria, cada vez mais curta, recebendo 0,1% do peso vivo em proteinado. Depois disso os machos são destinados à comercialização e as fêmeas seguem sendo preparadas para a reposição do plantel de matrizes, quando vão para o sequestro em confinamento por até 120 dias. “Às vezes alguns animais precisam ganhar um pouquinho mais de peso, então esta nutrição é ajustada, onde você tem uma época de desafio, que é a seca, e aí você consegue colocar estes animais em reprodução na idade que a gente hoje está trabalhando, que é de 12 a 14 meses”, esclareceu.

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A fazenda colheu os frutos da definição de um sistema intensivo de cria e um plano para bem executá-lo. Quando a equipe de reportagem visitou a propriedade em 2017 para a série de reportagens Rota do Boi (relembre no link abaixo), as fêmeas eram desafias à reprodução a partir do sobreano, aos 18 meses, e agora oferecem possibilidade do desafio das precocinhas já a partir de um ano de idade.

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Mesmo acrescentando estas novilhinhas à categoria de vacas exposta à reprodução, os índices de prenhez, peso à desmama e peso à desmama por vaca exposta impressionam. “Na safra 2018/19, nós desmamamos 201 kg por vaca exposta. Note que as empresas de consultoria hoje acreditam que as fazendas que desmamam acima de 165 kg de bezerro por vaca exposta já têm lucro, então é uma evolução grande”, aprovou o zootecnista.

“A média da safra 2018/19 dos machos, tanto Nelore quanto Angus, passou de 270 kg. A média entre todos os animais da desmama, machos e fêmeas Angus e Nelore, foi de 260 kg na safra 18/19. Esta safra 2019/20 foi uma safra um pouco atípica, choveu menos, então a seca chegou antes, a gente tem que tomar cuidado com a seca. Este peso deste ano vai reduzir, vai ser um pouco menor porque, às vezes, a gente tem que tomar cuidado e olhar para a fazenda, para as matrizes, antecipar alguma desmama, principalmente de algumas categorias, ainda mais agora que a gente vem trabalhando muito com animais precoces, então gente tem um uma primípara precoce e tem que estar bem atento, cuidar mais da fazenda, das matrizes, porque senão você acaba influenciando o resultado da próxima safra”, ponderou.

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José Eduardo acrescentou ainda que dentro dos dois últimos anos a fazenda aumentou em 50% a produção arrobas e, reforçando cuidado com a sanidade e o manejo preventivo, a mortalidade baixou e fez a taxa de desmama ficar acima dos 75%. A partir de uma estação de monta curta, a taxa de prenhez está sempre acima dos 80%.

O zootecnista detalhou também o manejo sanitário, grande desafio para uma fazenda de cria intensiva. Martins comentou que o calendário varia conforme a região da fazenda, que apresenta cenários distintos, mas que cabe à propriedade e aos parceiros – neste caso, à MSD Saúde Animal, definirem os protocolos. Na Fazenda Cambury, por exemplo, quando ainda não havia um calendário preventivo, a ocorrência de curso dos bezerros flutuava de 15% a 20%, ao passo que após a organização deste manejo sanitário feito a partir da safra 2014/15, o índice despencou para 2% a 3%. “Sem dúvida é outro bezerro. Além do desempenho, você não gasta para tratar desse bezerro, você não tem perda de bezerro, então a prevenção é importantíssima”, testemunhou.

Confira no link a seguir a palestra do gestor da Fazenda Cambury, com os números da propriedade em detalhes:

+ Palestra José Eduardo Martins Jr.: Estratégias que maximizam a produtividade na pecuária de cria

+ Assista e baixe palestras em PDF do 9º Webinar Giro do Boi – Estratégias de manejo na produção de bezerros de corte

Veja a entrevista completa do zootecnista José Eduardo Martins Junior ao Giro do Boi desta quinta, 30:

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