Confinamento encontra “santo remédio” e reduz morbidade por pneumonia em 32%

Usando menos medicamentos e intensificando a gestão de riscos sanitários, confinamento da Agro Pastoril Paschoal Campanelli em SP economizou R$ 235 mil em um ano

A gestão cura. Foi o que comprovou uma mudança gerencial do manejo sanitário no confinamento da Agro Pastoril Paschoal Campanelli, em Altair, no interior de SP. A história foi destaques da reportagem “Gestão sanitária à vista do produtor”, publicada pela revista DBO de fevereiro de 2021.

Conforme destacou o conteúdo (acesse pelo link acima), com alterações simples e usando menos medicações, a propriedade conseguiu diminuir em 32% a morbidade por pneumonia, caindo de 2,29% em 2019 para 1,55% em 2020, o que representou uma economia de R$ 52.047,00 de um ano para o outro. A alteração também resultou em queda da taxa de mortalidade, saindo de 0,07% em 2019 para 0,03% no ano seguinte, outra redução de custos expressiva, na ordem de R$ 121.638,00. Com o manejo ajustado, houve ainda redução do custo com antibióticos usados para a metafilaxia, cuja aplicação era feita em 33% dos animais em 2018 e caiu para 12% em 2019. Em 2020, os produtos foram aplicados em somente 9% dos bovinos confinados, uma economia de R$ 61.517,00, totalizando uma economia de R$ 235.203,00 para o confinamento da Paschoal Campanelli somente de 2019 para 2020.

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Nesta quinta-feira, dia 22, o CEO da Agro Pastoril Paschoal Campanelli, Victor Campanelli, e o médico veterinário e consultor da propriedade Anderson Batista falaram ao Giro do Boi sobre as mudanças que levaram ao aumento do desempenho do confinamento.

“A gente sempre investiu muito na parte técnica, na parte de nutrição, isso é uma vertente nossa de muitos anos, só que eu percebia que a gente deixava a sanidade não exatamente no segundo plano, mas a gente não dava o devido foco. Há cerca de dois ou três anos, […] eu chamei o Anderson para construirmos juntos um negócio que, para mim, faz muito sentido, que era começar a ter mais ou menos o que tem em nutrição e levar para sanidade, para tentar levantar mais números. […] A gente começou a tomar decisão com base em dados e a enxergar melhor o negócio”, destacou Victor.

Campanelli conta que os números começaram a melhorar, mas ainda não traduzem todos os benefícios que o processo trouxe ao confinamento. “Pouca gente põe na conta, pois onde você mais perde, você menos vê. Você vê o custo de antibiótico, mas a hora que você gastou com o foco de pneumonia, você já abriu mão de muito ganho de peso desse boi porque você não mensura. Então a maior economia está naquela que você não consegue medir. Ela é de certa forma intangível”, ponderou o executivo.

Conforme explicou o veterinário, o trabalho iniciou-se com a seleção dos indicadores que seriam úteis para a virada de chave. “Se você não tem indicador, você não sabe aonde você vai chegar. E começamos com os indicadores como mortalidade, que são os animais mortos, a morbidade, que são os animais medicados, e os custos sanitários para tentar levantar tudo isso dentro da fazenda. E a partir desse momento a gente conseguiu encontrar as lacunas e aonde a gente poderia melhorar”, lembrou.

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Conforme comparou Campanelli, o trabalho foi de ajuste fino para adequar o tratamento ao problema. “Às vezes você tem um problema gasta um tiro de bazuca para matar uma formiga. É muito comum isso, a pessoa se assusta com um problema de sanidade e acaba gastando mais do que deveria”, advertiu.

Entre as mudanças propostas esteve, por exemplo, investimento no sistema de irrigação dos piquetes para reduzir a poeira formada e o uso de princípios ativos mais precisos na prevenção à doença. “Foi um plano multidisciplinar. A gente já tinha um sistema de irrigação mais precário, mas investiu em um sistema mais robusto para tentar, de fato, trabalhar com menos poeira. E o Anderson, na ponta dele, onde foi a redução? Ele foi ganhando segurança dentro da companhia e foi conseguindo trabalhar com moléculas mais baratas em que, para usar a mesma analogia da arma, ele ajustou o calibre. Ele usou uma arma maior para uma presa maior e uma arma menor para uma presa menor”, ilustrou.

Além dessas mudanças, a propriedade, que faz recria própria de cerca de 40% dos animais que vão ao cocho, apostou na antecipação dos protocolos sanitários para que o bovino sofra menos interferências na engorda especificamente. “Uma das mudanças que a gente fez, que foi bastante significativa, foi de conceito. A gente trabalha com a recria também, a gente prepara esses animais com a dose de clostridium e dose de vacina respiratória para os bovinos chegarem no confinamento preparados, para a gente não colocar a mão neles no confinamento. Como a gente tem essa ferramenta, a gente começou a trabalhar de forma intensiva na recria também, além do confinamento, que foi preparado com irrigação”, acrescentou Batista.

A aclimatação dos animais que não são recriados na fazenda também passou por um processo de melhoria. “A parte de descanso também para os animais de compra, que entram direto (no confinamento. […] Você vai aplicar uma vacina em um animal que viajou 1.000 km e ficou um dia ou dois na carreta, ele chega no curral e recebe o imunizante… Mas não tem a mesma eficiência que teria se o animal fosse antes para o pasto descansar, se hidratar e depois voltar para receber essa vacina”, observou o veterinário.

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PIQUETES DE DESCANSO: UM “SANTO REMÉDIO

“A gente consegue recriar hoje cerca de 40% dos animais que a gente termina, então nesses animais a gente faz todas as vacinas, todo o protocolo sanitário antes do confinamento. A gente não coloca a mão neles no confinamento, eles vêm imunizados. Esses animais tendem a ter zero problema de pneumonia. Então os de compra eram um problema mesmo, e o que a gente fez do ano passado para cá? A gente tem hoje 21 piquetes em volta do confinamento, são piquetes de tifton que comportam um lote mais ou menos do mesmo tamanho de um lote de confinamento, de 150 a 200 bois. Nos piquetes os animais têm ração disponível, água corrente no fundo e água fresca em bebedouro. Esse piquete é a nossa adaptação. O que antes a gente fazia dentro do confinamento, hoje a gente faz fora do confinamento. Os animais chegam e a gente não joga direto para o curral de confinamento. Ele vai para esse pasto. É uma área de descanso. Mas ali ele já começa a comer ração de adaptação de confinamento e já começa a contar dias de confinamento ali. Uma vez formado o lote, o gado brincado e passando pelo protocolo, ele vai cumprir os dias de adaptação dele. Quando a gente fez isso, a gente tinha poucas áreas desse tipo, hoje são 21 piquetes desses. A gente consegue manter por lá três ou quatro mil bois aguardando para entrar no confinamento. Para a gente foi um santo remédio”, detalhou Victor Campanelli.

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As rondas sanitárias foram intensificadas no confinamento da Agro Pastoril Paschoal Campanelli para diminuir ainda mais os riscos de perdas por doenças, uma vez que o diagnóstico precoce aumenta a chance de sobrevivência do animal e reduz também a probabilidade de infectar outros indivíduos do lote. Por isso, as rondas ganharam equipe dedicada especialmente à função.

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“Hoje na Agro Pastoril Paschoal Campanelli a gente faz necropsia 97% dos animais que morrem. A gente só não necropsia animais com fratura. […] Aliado a isso, hoje o pessoal fala muito que tem equipe de ronda nos confinamentos, mas o que a gente enxerga? O pessoal da operação faz tudo, embarca boi, processa boi e depois vai ver o animal, depois que vai rodar. Na Campanelli hoje nós temos duas pessoas exclusivas para ronda. Elas já têm um processo montado, arreiam o cavalo e rodam na parte da manhã em todos os currais, levantando animal por animal que estiver deitado, olhando escore de fezes, olhando cerca, olhando bebedouro em todos os currais da propriedade. Chegando nesse piquete, se tiver algum animal enfermo, ele já tira esse animal, já coloca no corredor e depois a gente leva para o hospital para tratá-lo. Essa ronda é feita de manhã em todos os currais e, pela tarde, […] a gente consegue fazer a segunda ronda, que é a ronda externa, por fora, para dar mais uma passada”, acrescentou.

Victor Campanelli sustentou que, a partir de agora, o manejo sanitário receberá sempre o mesmo foco de precisão que a nutrição do confinamento recebe. O executivo lembrou que, para isso, os gestores devem demonstrar a mudança para dar exemplos aos colaboradores e tornar o foco intenso em sanidade uma cultura da propriedade.

“Com a sanidade a gente tem que abrir muito o olho porque onde você está perdendo, você não está vendo e não consegue mensurar. Então, para nós, depois do dia que a gente começou esse trabalho com foco absoluto na sanidade, ela anda lado a lado com a nutrição. A gente mudou de patamar a fazenda, a gestão hoje é diferente. Só que a gente precisa dar valor para isso dentro da empresa porque se você não der valor, os funcionários não vão dar”, comentou.

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Confira a entrevista completa com Victor Campanelli e Anderson Batista pelo vídeo a seguir:

 

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